O grande motivador desse blog é o Petit, ou Bebê para os íntimos. Petit é um daschund (salsicha) de aproximadamente 10 anos, que ficou paralítico em 2009.

– O início –

Comprei meu cachorrinho em uma feira livre, de procedência duvidosa, mas que me apaixonei na hora. Na época era noiva, muito jovem, montando casa com meu noivo. Impulsivamente, embora não me arrependa nem um pouco, comprei aquele cachorrinho pequenino, de pelo caramelo, muito carinhoso e brincalhão. O então nomeado Petit (“pequeno”, em francês) foi adquirido para fazer companhia para outro cachorro nosso, morador da nossa recém-adquirida casa.

Eram dois cachorros. O meu dasch e o doberman, Eddie, do meu noivo. Muitos achavam loucura manter um cachorro tão grande com outro tão pequeno. Mas ambos tinham personalidades complementares. Enquanto o Eddie era uma criança grande e bobona, Petit era o defensor da casa, dos donos e do próprio Eddie. Mesmo assim, Petit sempre foi muito carinhoso, inclusive deixando de comer quando viajávamos.

Lembro de como o Petit, mesmo filhote, já se mostrava guerreiro. Uma vez ele comeu chumbinho por acidente. Me desesperei. Quando vi, meu cachorro já estava vomitando, defecando e urinando descontroladamente. Levei correndo Petit ao veterinário, em prantos. O veterinário o recebeu, medicou e internou. Deixando-o internado, sabia que possivelmente aquela seria a última vez que eu o veria. Não consegui dormir naquela noite. Ligava para a clínica de madrugada de hora em hora, para ter a certeza que o vigia não dormiria e monitoraria meu cachorro.

Assim que abriu a veterinária, estava eu lá aflita, querendo saber notícias. Sabia que possivelmente a noticia poderia ser ruim. Não era. Petit  estava bem melhor, já se alimentava normalmente e estava de pé, já querendo ir pra casa. Dias seguintes, foi, e sem nenhuma sequela.

Petit quando filhote e jovem. Muito ativo e brincalhão.

Petit quando filhote e jovem. Muito ativo e brincalhão.

Fomos felizes por muito tempo. Até que o meu relacionamento com o dono do Eddie terminou. Não tinha para onde levar os cachorros e não tinha coragem de separá-los. Com o tempo, embora muito difícil, deixei os cachorros na casa do meu ex, sobre seus cuidados. Contudo, ia visitá-los toda semana. Com o tempo e o novo relacionamento do meu ex, obviamente minhas visitas não estavam mais sendo oportunas. Logo, muito mais difícil, decidi seguir minha vida e deixar essa parte no passado. Meu ex sempre teve cachorros. Confiava nele como dono. O sofrimento seria meu. E foi.

Anos se passaram. Acreditava que tinha tomado a melhor opção. Um belo dia, meu ex me manda uma mensagem de celular, falando para que eu procurasse uma certa mulher, que o Petit se encontrava com ela porém não poderia ficar com ela. Pedindo mais informações, ele me disse que Petit tinha ficado doente e essa tal mulher o pegou para tratar. Tratado, ele não poderia mais ficar com ela e eu deveria pegá-lo.

Desisti de buscar informações com ele. Liguei para a tal mulher. Ela me disse que estava devolvendo o Petit naquele dia para meu ex, pois não poderia mais ficar com ele. Contudo, ele não poderia ficar com meu ex também, por causa do outro cachorro. Conversando com ela, entendi o que tinha ocorrido.

Petit, um belo dia, sem nenhum motivo aparente, parou de andar. Ficou quieto, não se alimentava, não deixava ninguém chegar perto, não se mexia. Meu ex levou o Petit ao veterinário que diagnosticou “problema na coluna irreversível” e orientou a eutanásia. Meu ex, sem procurar outra orientação, e sem me avisar nada, optou pela eutanásia pois, segundo ele, Petit se tornara um cachorro que precisava de cuidados a que ele não tinha tempo para fornecer.

Meu ex comentou com uma colega o problema do Petit. Ela é um anjo. Só posso dizer isso. Ela impediu que meu ex fizesse a eutanásia no dia marcado, se comprometendo a tratá-lo. Foi o que ela fez. Não sei direito por quanto tempo nem quanto foi gasto nem quais foram os tratamentos. Mas imagino que tenha sido um custo bem alto. Disse-me que foram sessões de acupuntura e fisioterapia diárias. Fez uma cadeirinha de rodas para ele.

Petit voltou a andar. Por motivos que também não entendi direito, ela precisou devolver o cachorro.

Sem poder, sem ter muitas informações, sem ter para onde levar o Petit, fui pegá-lo na casa do meu ex. Ele me alertou que estava arredio, rosnando para todos e não permitindo que ninguém chegasse perto. Qual foi minha surpresa quando o vi arredio embaixo da mesa da sala, rosnando para, na época, a atual mulher do meu ex? Petit me reconheceu. Nos olhamos longa e apaixonadamente a ponto dele ignorar a mulher do meu ex o pegando no colo. Continuando a me olhar, ele veio para o meu colo. Eu sabia que a minha vida estava para mudar completamente naquele momento.

 

– A paralisia novamente –

Desde que peguei Petit para mim novamente, ele era um cachorro normal, como sempre foi. Corria, brincava, comia as plantas da minha mãe, caçava ratos, entrava correndo, mijava no tapete da sala, etc. Estripulias normais de um cachorro feliz e saudável, né?

Ele ficava na casa da minha mãe, pois eu dividia apartamento em uma república que não permitia cachorros.

Um dia, uns quatro meses depois de resgatá-lo, minha mãe me liga chorando, dizendo que Petit parou de andar, ficou quieto, choramingando, não comia. Em se tratando de Petit, ele estar quieto já era muito preocupante pois ele sempre foi muito ativo.

Larguei tudo (monografia, estágio, conclusão da faculdade) e fui correndo para casa da minha mãe. Sobre muitas recomendações, levei meu cachorro ao Hospital Veterinário da UFF. Exames feitos, neurologista atendendo, diagnóstico fechado: hérnia na lombar. Em realidade, toda a coluna do meu cachorro estava comprometida contudo, o que estava causando a paralisia era a hérnia na lombar. Conversando com a médica, ela me falou que se tratava de uma doença neuroDEGENERATIVA muito comum nos cachorros dessa raça. Me falou que, no estágio da hérnia que estava, e em várias vértebras, não tinha orientação cirúrgica e, com isso, segundo ela, meu Petit NUNCA voltaria a andar. Chorei muito. Eu estava debruçada na maca do hospital, abraçada com meu cachorro, impedindo que ele se mexesse. No momento em que recebi essa notícia e comecei a chorar desesperada, Petit começou a lamber meu braço.

O que fazer com um cachorrinho tão carinhoso assim? Um cachorro que, mesmo com dor, não se detinha em me consolar.

EM MOMENTO ALGUM, embora a neurologista tenha dito que Petit nunca voltaria a andar, a mesma orientou à EUTANÁSIA. Disse que ele poderia viver perfeitamente, como cachorro paraplégico. Recomendou acupuntura.

No mesmo dia começamos a medicação solicitada e o levamos para avaliação do acupunturista. O profissional me acalmou bastante falando que pegou vários cachorros na mesma situação, com prognóstico pior, que voltaram a andar.

Lembro desse dia como ontem. Lembro do meu desespero e o quanto eu me senti perdida. Meu mundo caiu. Fiquei umas 6 horas no hospital, dentre exames, médicos e opiniões. Gastei, somente naquele dia, quase mil reais.

Saí do hospital com meu cachorro ainda sofrendo muito, sem se mexer, coloquei-o em uma caminha dentro de casa, confortável. Ele dormiu e eu permaneci com as 500 mil DÚVIDAS que pairaram sob minha cabeça. Será que eu estava fazendo certo? Será que ele não estava sofrendo demais? Se a doença é neurodegenerativa, POR QUE PROLONGAR ESSE SOFRIMENTO?

Essas dúvidas permaneceram em minha cabeça mas fiz o tratamento com medicamentos, como orientado pelos médicos. Dois dias depois, durante o tratamento, imagine a cena: eu e minha mãe abraçadas, chorando, porque o Petit, mesmo deitado sem movimentos traseiros, balançava o rabinho. O balançar do rabo dele, tal qual ventilador, era uma marca registrada do Petit.

E assim o foi: cada dia do remédio, uma nova conquista. Desde ele fazer xixi sozinho até, puxado pelas patas da frente, começar a se movimentar, se arrastando pelo chão.

E assim permaneceu. Após a retirada dos medicamentos, Petit não sentia mais dor. Pensa que ele ficou deprimido porque perdera os movimentos das patas de trás? Que nada!!! CORRIA PELA CASA TODA, se arrastando pelas patas da frente.  Lembra aquele cachorro ativo que corria a casa toda e que eu achava que nunca mais seria o mesmo? Voltou. Só um pouco DIFERENTE. PARA NÓS, NÃO PARA ELE. Ele sempre se mostrou muito FELIZ, fortalecendo minha decisão de NÃO DESISTIR dele, o que a maioria das pessoas falava para eu fazer (com a desculpa que era muito sofrimento para um cachorro). Sofrimento? Tem noção do que é chegar em casa e ver a sala toda coberta por papel higiênico e seu cachorro dito “paralítico” correndo, mesmo sem os movimentos das patas traseiras, e te dando “olé”?

Mesmo paralítico, Petit não deixou de ser safado. Ele se adaptou muito rápido à condição dele (mais rápido que eu!).

Mesmo paralítico, Petit não deixou de ser safado. Ele se adaptou muito rápido à condição dele (mais rápido que eu!).

Louco por garrafa pet. Nenhum brinquedo caro supera uma garrafa pet.

Louco por garrafa pet. Nenhum brinquedo caro supera uma garrafa pet.

Ia toda semana ao hospital veterinário fazer acupuntura nele. Era uma diversão pra ele. Implicava com todo mundo, latia para todos os cachorros, cheirava, mijava, fazia festa!

Aos poucos, Petit, quando levantado pela barriga, movimentava as patas traseiras. Foram meses fazendo esse exercício com faixas e toalhas para suspendê-lo. Depois de um tempo, não precisou mais desses artifícios: ele movimentava as patas traseiras sozinho. ANDAVA, mesmo que de forma meio descoordenada, com as QUATRO PATAS.

Petit, andando com apoio traseiro.

Petit, andando com apoio traseiro.

– O tumor e a filariose –

A vida paralítica de bebê só o tornou mais carinhoso. Triste, jamais!

Em algum momento de 2010, Petit ficou quieto (o que para ele, mesmo paralítico, era muito anormal). Percebi que a bolsa escrotal dele estava inchada. Levamos bebê ao hospital veterinário, onde foi feita ultrassonografia. No exame foi diagnosticado um crescimento anormal como um tumor de 1mm. A cirurgia era urgente. Seria feito um tratamento com antiinflamatório, para diminuir o inchaço e melhorar as condições do bebê (que não comia). Enquanto isso, seriam feitos os exames pré-operatórios para o risco cirúrgico. A cirurgia ficara marcada, então, para a semana seguinte.

No dia da cirurgia sou informada que bebê não poderia operar pois fora diagnosticado com dirofilária (filariose ou verme do coração), o que deveria ser tratado.

Provavelmente Petit adquirira filariose quando morou com meu ex, a região é endêmica para a doença.

A médica me mandou o tratamento. Um antibiótico, para matar a bactéria que vive em simbiose com o verme da filaria. E, uma vez ao mês, um remédio que matava as microfilárias, as filarias filhotes, limitando a população que ficaria fadada a acabar. Pesquisando sobre o assunto, eu sabia que o tratamento seria MUITO DIFÍCIL. Embora a médica tenha escolhido o tratamento mais novo e alternativo, eu sabia dos riscos do mesmo. Muitos animais morrem com o tratamento da dirofilária e, não pela doença. O risco de embolia, convulsões, morte súbita, era real.

Fiquei me preparando para o pior acontecer. Meu cachorrinho guerreiro, dessa vez, poderia me deixar. E nem era por causa do tumor diagnosticado, o que já me deixara muito temerosa, mas por causa do tratamento de dirofilária.

Mesmo sendo muito difícil, tentei limitar o espaço que o Petit andava e passei a não brincar mais com bola, para que ele não corresse e se cansasse. Sabia que o risco de embolia era real.

A PRIMEIRA VEZ que ele teve uma CONVULSÃO, eu estava vendo TV, com ele a meus pés, deitado. Notei que ele começou com um comportamento estranho, distante. Me aproximei dele, sentando no chão. Ele começou a tremer involuntariamente. Babava muito. Os olhos ficaram esbugalhados. Não sabia o que fazer! NÃO ESPERAVA por aquilo. Me debrucei sobre seu corpo, falando baixo em seu ouvido: Calma, Bebê! Calma! Seja forte! Mamãe está aqui. Vai passar. Se estiver muito difícil pra você, pode ir, meu amor.

Passou. Assim que PASSOU, ele se levantou e começou a LAMBER MEU BRAÇO. Chorei abraçando-o e ele não parou de me lamber.

Ele teve mais 3 convulsões durante 1 ano de tratamento. Três, pelo menos que eu estava presente. Será que ele não sofreu sozinho e superou sozinho outras convulsões?

O tratamento de dirofilária é permanente. Para sempre ele tomará esse remédio. Ao menos as convulsões hoje são muito raras, graças a Deus.

Depois de um ano, voltei para fazer a cirurgia de retirada do tumor. O ecocardiograma do risco cirúrgico do bebê deu normal. Sem vermes adultos no coração. Fez a cirurgia de retirada dos testículos e bolsa escrotal. A recuperação foi maravilhosa. Fiz a biópsia do material. Nenhuma célula tumoral foi observada.

 

– Possível hérnia cervical –

Um dia, em setembro de 2012, estava de madrugada vendo TV, abraçada com meu cachorro. Insônia, sabe? Mas as insônias ficaram mais gostosas desde que comecei a morar com meu bebê. Mas nesse dia, algum motivo que eu não entendia, me mantinha acordada. Com o desenvolver da madrugada, fui notando que Petit começou a reclamar de posições. Estranho. Ele nunca gritou por posição que machucava. Nem mesmo nas épocas que ele sentia dor, quando entrou em crise por causa da hérnia lombar.

Bem, ele não gritou muito, só reclamou. Achei muito estranho. Mas ele ficou em uma determinada posição e, assim, dormiu. Decidi, então, deitar na cama. Horas depois, sou acordada com GRITOS com meu cachorro. Fui correndo, DESESPERADA, acudir. Porém, não tinha muito o que fazer. Ele se mexia e gritava. Tentava mudar de posição e gritava. Os olhos dele de MEDO e pânico, olhando pra mim, eu nunca irei esquecer. Ele, com os olhos, perguntava o que estava acontecendo, para eu parar com aquilo. Depois de gritos desesperados dele, conseguimos uma posição deitada que ele não reclamou. Liguei para mil pessoas pedindo para me levar ao consultório do médico especialista que, naquele dia, não trabalhava na minha cidade. Consegui. Nessas horas precisamos, e muito, de almas caridosas. Nesse momento foi meu ex-cunhado que, ouvindo minha voz desesperada ao telefone, largou tudo para me ajudar.

Foi muito difícil pegá-lo no colo e levá-lo ao carro. Ele gritava muito, demonstrando muita dor. Precisei tirar forças e frieza não sei de onde para continuar. A viagem foi a mais longa possível. Cada buraco no caminho era uma tormenta! Nessas horas que se observa que realmente as ruas e estradas estão em péssimas condições!

Fiquei a manhã toda na clínica, esperando algum encaixe. Chorava copiosamente. Coloquei Petit no sofá da clínica e sentei no chão, abraçando-o para que ele não se mexesse. Qualquer movimento ele gritava. Mesmo assim, em um dos momentos que CHOREI DESCONTROLADAMENTE, ele mexeu a cabeça dele para me LAMBER A MÃO. Olhei para aquilo e tentei não chorar mais. Como um bichinho tão carinhoso desses poderia estar sofrendo daquela maneira? Muita maldade!

Quando finalmente fui atendida, o médico veterinário ortopedista, em um exame clínico, diagnosticou hérnia na cervical. Entrei em desespero. Sei que HÉRNIA CERVICAL é muito pior que hérnia lombar, que ele já tem. Hérnia cervical causa tetraplegia, quiçá morte! Além disso, dores absurdas, como apresentadas por bebê e que me deixara desesperada. Em nenhum momento, mesmo com as hérnias que ele teve e as muitas crises que teve, nunca ele gritou de dor.

Com o diagnóstico, conversei com o médico falando que EU queria a eutanásia. Mesmo com todos os problemas que Petit já teve anteriormente, ele nunca ficou com tanta dor. E sabia que o prognóstico de uma hérnia cervical seria muito ruim. Como um cachorro poderia viver assim? Com certeza, pensei que aquele era o momento final de bebê. Não queria, por um capricho meu, manter o Petit vivo sofrendo horrores, como ele estava sofrendo. Deus iluminou o médico que, mesmo frio, falou para eu não me precipitar. Fazer a medicação dele, tirá-lo da crise, fazer uma mielografia (um tipo de raio x com contraste). Depois, se fosse o caso, decidir por algo.

Não queria fazer o tratamento dele. Não queria tirá-lo da crise. Se eu esperasse e tirasse da crise, talvez seria mais difícil para mim tomar essa decisão. Ele não estaria morrendo de dor. Por que eutanasiá-lo? Porque ele poderia ficar como vegetal o resto da vida? Seria uma vida triste? Mas ele não se adaptou feliz e contenta à vida de paraplégico? Viveu anos muito felizes, talvez mais felizes que um cachorro normal, sendo paraplégico? É justo?

Essa questão me consumia e, pra falar a verdade, me consome até hoje. Mas, naquela hora, o que me importava era a dor desesperadora que meu cachorrinho sentia e o péssimo prognóstico dele. Pela não aceitação (ainda bem!) do médico e por falta de dinheiro, pois a clínica era MUITO cara. Me resignei, simplesmente, com um tranquilizante para que Petit não sofresse na viagem de volta.

Em casa, minha irmã me convenceu que meu cachorro tinha sido guerreiro até agora, passando por tudo que ele já passou, que não foi pouca coisa (chumbinho, paralisia, tumor, filariose e agora hérnia cervical). O mínimo que eu tinha que fazer era continuar sendo digna de ser dona dele: ser forte.

Fiz o tratamento dele. Muito triste. Ele não mexia a cabeça. Eu fiquei semanas sem ir trabalhar para cuidar dele. Para beber água, eu tinha que segurar a cabeça dele.

Ele estava triste. Pela primeira vez senti meu bebê triste com a situação. Eu sofria muito. Na semana seguinte iria fazer o tal exame que tinha um custo que eu não poderia pagar. E, diagnosticando o local da hérnia, seria feita a cirurgia de descompressão. A cirurgia, com certeza, eu não teria como pagar.

Com o passar da semana, o Petit não melhorou mas a tristeza dele, sim. Já voltara a me lamber, a chorar para pedir carinho, etc. Era triste. Mas ele estava reagindo, mesmo que no emocional.

Mesmo assim, eu não melhorei. SOFRIA muito em ver meu cachorrinho tão ativo daquela maneira, sem conseguir nem levantar a cabeça para beber água. Ficava na mesma posição o dia todo, só mudava quando eu me enchia de coragem e o rolava pelo tapete, para mudar de posição, mesmo com possíveis gritos.

Passei a entender certas reclamações dele. Sabia quando ele queria água, comida, ou mudar de posição. Embora eu tivesse me ADAPTADO, e ele também, não queria isso pra ele.

Chegou o dia do exame. Não fui confiante. Anestesia geral. Quando me tiraram ele dos braços, fiquei em pedaços…

Fiquei o dia inteiro esperando. Sabia que era muito arriscada a anestesia geral e o próprio contraste utilizado. Mas era a única ferramenta. Não tinha o que fazer.

Ao final de 6 horas de espera, consegui uma notícia do médico: não era hérnia!!!!!!!! Era uma infecção do disco vertebral da cervical com comprometimento da vértebra. Não sabia ao exato se isso era melhor ou pior prognóstico mas, pelo alívio do médico saindo da cirurgia, acreditei que fosse melhor.

Realmente era. O tratamento seria longo e difícil, com antibiótico. Mas poderia ter cura, o que a hérnia não teria.

Mas ainda havia risco de efeitos colaterais do contraste. O Petit teve que ficar internado em observação por 24 horas. Mais uma vez, meu cachorro com muita vontade de viver, veio para mim inteirinho na manhã seguinte. Como eu poderia ter pensado em sacrificar essa criança?

Não digo que foi fácil o tratamento. Quase UM ANO de remédios. Mas ele me mostra todos os dias o quanto forte ele é. Os movimentos das patas de trás ficaram bem prejudicados, o equilíbrio também. Mas ele, aos poucos, dia pós dia, começou a levantar a cabeça, depois o tronco, ficar em pé com as patas da frente, tentar andar com as patas da frente, se arrastando, e se arrastando andando com as patas da frente. A luta pela Vida foi constante mais uma vez. Mas o meu trabalho foi o mínimo que pude fazer por esse cachorro guerreiro.

 

Petit, com dor na cervical, não se movimentava nem tinha posição. Tive que mantê-lo assim, por longos dias, apenas virando de um lado para o outro. Em alguns dias, gracas a Deus, ele melhorou.

Petit, com dor na cervical, não se movimentava nem tinha posição. Tive que mantê-lo assim, por longos dias, apenas virando de um lado para o outro. Em alguns dias, gracas a Deus, ele melhorou.

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Comida, água, remédios, tudo era por siringa pois ele não conseguia mexer o pescoço.

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Mesmo com o meu desespero, em dois dias Petit já me mostrava que, mesmo naquela situação, estava bem e a unica coisa que queria era meu carinho e que eu ficasse calma.

– A então hérnia cervical –

Em 2013, o meu medo de 2012 aconteceu: hérnia cervical. Petit paralisou o corpo todo mais uma vez. A tomografia mostrou claramente uma hérnia em C3-C4 gigantesca. A cirurgia não era para ele retornar movimentos, era para melhorar a dor. A cirurgia seria extremamente difícil: a hérnia estava próxima de vasos sanguíneos importantes. A chance de uma hemorragia letal era grande. Ou mesmo, se houvesse hemorragia não letal, possivelmente teria que interromper a cirurgia sem concluí-la. Ou seja, o risco de dar errado era quase certo. O que fazer? Eutanasiar? Gastar 3 mil em uma cirurgia para não dar certo? E mesmo se desse certo, sem qualquer esperança de voltar a ter movimentos do corpo. O que fazer?

Pensei muito e decidi que NÃO SERIA DIGNA DAQUELE CACHORRO GUERREIRO SE EU DESISTISSE POR ELE. Eu tinha que dar essa chance para ele. Peguei um empréstimo no banco e autorizei a cirurgia. Levei para o procedimento me despedindo dele. Para mim era quase certo que ele não resistiria à cirurgia mas eu não poderia não dar a chance para ele tentar. ELE CONSEGUIU. Contra todas as probabilidades, ele sobreviveu à cirurgia, e conseguiram tirar a compressão da medula. Chorei, sorri, gritei… Meu cachorro guerreiro mais uma vez me mostrou que EU NÃO PODERIA DESISTIR POR ELE.

Ele perdeu o avanço de todos os anos de fisioterapia e acupuntura, mas se arrasta pela casa toda comendo papel, atacando a fruteira, latindo para as visitas…

Festinha de 2 anos da cirurgia da cervical.

Festinha de 2 anos da cirurgia da cervical.

– Atualmente –

Petit voltou a andar com auxílio com as quatro patas na rua. Em casa ele só se arrasta. Faz acupuntura, tem carrinho… Se eu diminuir a fisioterapia, ele consegue andar menos. Se eu aumento, ele até consegue andar sozinho.

Petit em pé sozinho depois de 1 ano da cirurgia da cervical. Eu fiz um escândalo e ele, obviamente, ficou muito feliz por ele e por mim. Ficou em pé com o rabo balançando como um ventilador.

Petit em pé sozinho depois de 1 ano da cirurgia da cervical. Eu fiz um escândalo e ele, obviamente, ficou muito feliz por ele e por mim. Ficou em pé com o rabo balançando como um ventilador.

Fazendo fisioterapia.

Fazendo fisioterapia.

Não me arrependo de NADA que fiz por ele. Tudo que aprendi com meu petit é muito maior que o dinheiro que gastei, os eventos que deixei de ir, as noites sem dormir. Petit me mostrou o quanto a Vida vale a pena. Mesmo nos piores momentos, com ele morrendo de dor, sem conseguir mexer do pescoço pra baixo, Petit se esforçava só pra me dar uma lambidinha quando eu chorava por causa dele. Ele sempre me mostrou que não queria desistir. Com a idade, sei que será difícil. Espero que não. Espero nunca ter que tomar a decisão por ele. Mas tenho a certeza que só faria isso quando visse que ele não quer mais tentar. E espero q isso nunca aconteça.

Agradeço todos os dias por Deus ter colocado esse cachorrinho ESPECIAL na minha vida. Especial, não porque é paralítico. Mas especial por tudo que me ensinou e me ensina.

julho2015

Como será o amanhã? Não sei. Vivemos o hoje. E o hoje é muito bom ao seu lado, Petit.

Fisioterapia também faz na praia.

Fisioterapia também faz na praia.

caminhada-meupetespecial

…e no parque.

E ele me agradece todos os dias por não ter desistido dele.

E ele me agradece todos os dias por não ter desistido dele.

Todos os dias.

Todos os dias.

Com muito carinho.

Com muito carinho.