Das muitas histórias que passei com meu Petit, não consigo elencar qual foi a mais importante. Mas recentemente fez dois anos do incêndio na minha casa, que quase perdi meu fiel cãopanheiro. E esse, com certeza, foi um dos momentos que mais aprendi com meu cachorro. Hoje, tanto tempo depois, escrevendo essa matéria, ainda choro. Chorarei para sempre.

Era 17 de dezembro de 2013 a por volta das 21 horas, passei em casa rápido, vi Petit (na época eu só tinha ele, meu cãopanheiro), troquei sua fralda, me arrumei e fui pra academia. Contudo, ao chegar lá não consegui fazer um exercício. Não sei explicar mas comecei a passar mal na academia, e nenhum exercício rendia. Voltei pra casa.

Morava em uma casa de vila fechada, de portão bem estreito.  Tipo a vila do Chaves mesmo, como era conhecida. Ao me aproximar, vejo muita gente na frente do portão da vila, muita gente! E caminhão do bombeiros e ambulância. Gelei frio. Comecei a correr para a entrada da vila. Passei pelas pessoas para me aproximar. Na entrada, fui impedida por um bombeiro.

Havia fogo, fumaça. Eu, desesperada, perguntei onde começou o fogo. Ele disse que tinha começado na casa 11, duas ao lado da minha, e que tinha pego todo o lado esquerdo da vila (onde ficava a minha casa).

Foto tirada do prédio vizinho do incêndio na vila

Foto tirada do prédio vizinho do incêndio na vila

Nesse momento minhas pernas falharam. “Moço, pelo amor de Deus, eu tenho um cachorro sozinho na minha casa. Moro na casa 7, preciso pegá-lo. Os senhores não podem pegar pois ele é paraplégico”. O bombeiro que impedia a entrada as pessoas, ouvindo meu apelo, gritou para os bombeiros que combatiam o fogo mais a frente da vila. Mas não permitiram meu acesso pois o fogo não estava controlado. Tive que esperar junto ao bombeiro da porta. Foram os momentos mais torturantes da minha vida.

Finalmente o bombeiro de dentro autorizou minha entrada. Atropelei o bombeiro da porta. Só permitiram a minha entrada na casa se eu colocasse uma máscara de gás. Havia muita fumaça. Quando entrei na vila, vi sua destruição. Imaginei o pior. Como meu Petit, paraplégico, poderia se proteger do fogo, correr, fugir? Não teria chance. O medo e a culpa me consumiam.

Era muita fumaça. Coloquei a máscara por exigência do bombeiro. Vendo aquela fumaça preta tive a certeza que mesmo que Petit não tivesse sofrido com o fogo, não teria sobrevivido à fumaça.

Abri a porta, uma nuvem de fumaça veio pra fora. Vi Petit, vivo, desesperado, tentando fugir e obviamente não conseguindo. Chorei na hora, agradeci a Deus, me joguei no chão para pegá-lo no colo. Peguei o carrinho dele e saí da casa. Não poderíamos ficar lá dentro pois ainda era perigoso. Voltamos nós dois para fora da vila. O bombeiro da porta e alguns moradores vizinhos se emocionaram comigo voltando com Petit vivo no colo. Eu me debulhava em lágrimas.

Saí, então, de perto da bagunça da entrada da vila. Sentei no meio fio, com Petit no colo abrançando-o. Tentei acalmá-lo, dando carinho, aconchego e conforto no  colo de mãe. Não queria mais saber da casa, das minhas coisas, de nada. Sabia que os bombeiros estavam trabalhando. O mais precioso eu já tinha tirado da casa, meu Petit.

Imagino que era uma cena até esquisita. Um bando de gente, caminhão de bombeiro, uma confusão na frente da vila, e eu ao lado dessa confusão toda, sentada no meio fio, com meu cachorro paraplégico no colo, cantando baixinho pra ele.

Com o fogo controlado, os bombeiros autorizaram a entrada dos moradores. Petit ficou no carrinho, no pátio da vila, enquanto eu via os estragos da casa. O fogo começou 2 casas após a minha, mas pegou a minha. Veio pelo teto, graças a Deus, Petit ficava no primeiro andar. E o fato de Petit ser pequeno, ficar próximo ao chão, é onde há mais ar respirável em caso de incêndio pois a fumaça fica mais elevada.

O que pode ter salvado Petit. Por ser paraplégico, não tinha como pular no sofá ou móveis, ficando no chão, onde o ar é mais respirável pois a fumaça fica no alto.

O que pode ter salvado Petit. Por ser paraplégico, não tinha como pular no sofá ou móveis, ficando no chão, onde o ar é mais respirável pois a fumaça fica no alto.

Minha casa, assim como outras 5, ficaram interditadas. Os bombeiros só permitiram a entrada para pegar objetos importantes e sair. Peguei o necessário para passar uma noite fora – eu e Petit. Dormimos na casa da minha irma, no quarto dos meus sobrinhos. Eles dormiram com minha irmã e cunhado.

No dia seguinte, cedo, voltei com meu cãopanheiro para a vila. Ele não fica bem sozinho em casa desconhecida, por isso sempre é melhor levá-lo.

Foi um dia cheio, tenso. Fiquei pra lá e pra cá resolvendo coisa, chamando defesa civil para vistoriar e desinterditar (ou não) a casa, chamando polícia civil (que a princípio não iria) pra fazer perícia para investigar as causas do incêndio. Falar com a administradora da vila, proprietária dos imóveis – todos eram alugados, um único dono.

Defesa civil fazendo vistoria nas casas no dia seguinte.

Defesa civil fazendo vistoria nas casas no dia seguinte.

Minha casa foi desinterditada parcialmente, permitindo entrada e saída, mas impedindo ligar energia elétrica pois toda ela havia sido queimada. Ou seja, estava desabrigada por tempo indeterminado.

Casas interditadas.

Casas interditadas.

Ao meio do dia, quando já tinha resolvido tudo o que dava pra resolver e “aceitado” o que não podia resolver, bateu aquela tristeza. Sabe quando você não se permite cair porque tem que ser forte, ter muita coisa pra resolver, mas quando as coisas se acalmam, você desaba? Eu sou assim. E aquele estava começando a ser o momento de cair. As coisas estavam calmas, as pessoas em suas casas, a vila vazia, eu na porta de casa, desolada… Quase chorando, olhei pra dentro da casa. Vi essa cena.

Petit dormindo de qualquer jeito na casa interditada, no que era o nosso lar.

Petit dormindo de qualquer jeito na casa interditada, no que era o nosso lar.

Aquela criaturinha encolhida, dormindo no tapetinho que coloquei pra ele, na sala toda zoneada…. Em meio ao caos e ao desespero que queria entrar no meu coração naquele momento, vi essa cena de tranquilidade. Como se ele me falasse que para tudo dá-se um jeito. Ele não precisava de uma cama confortável, de todos os seus brinquedos, aquele tapetinho solto no meio da sala cheirando a queimado estava bem. Chorei. Muito. Até hoje quando vejo essa foto me emociono.

No segundo dia – e por um bom tempo! – fiquei alojada com Petit na casa da minha avó. Petit sempre me ensinando que precisava de pouco pra viver. Lembro que eu levei mais coisa pra ele que pra mim: cama, brinquedos, toalhas, tudo que lembrasse o lar dele, para que ele não sofresse tanto. Ele estava muito agarrado a mim, com medo. Mas mesmo eu tendo levado o máximo de coisas pra ele, ele sempre preferia dormir nas minhas roupas (que por estar desalojada, ficavam no chão).

Levei cama, toalha, tapetinho, brinquedos. Onde ele resolve dormir?

Levei cama, toalha, tapetinho, brinquedos. Onde ele resolve dormir?

Eu não brigava. As poucas roupas que eu tinha, ficavam dobradas, no chão, ao lado da minha cama também no chão. Ele sempre ia dormir nelas. Não importa, lavava 500 vezes. Se era daquilo que ele precisava para se sentir acolhido, aquilo ele teria.

Dormindo nas roupas recém lavadas para tirar o cheiro de queimado.

Dormindo nas roupas recém lavadas para tirar o cheiro de queimado.

Ficamos quase um ano desalojados, morando de favor, no chão, improvisado, um sendo o mundo para o outro. Eu era tudo o que ele precisava. Ele era meu alento frente a tudo que estava acontecendo. Não foi fácil. Foi muito difícil tudo o que passamos. Mas eu sempre tinha essa carinha me pedindo carinho quando eu estava deprimida.

Sempre que eu caía, ele vinhe com essa carinha me pedir carinho, mostrando que ele estava sempre comigo.

Sempre que eu caía, ele vinhe com essa carinha me pedir carinho, mostrando que ele estava sempre comigo.

Deus realmente foi muito bondoso em ter colocado Petit no meu caminho. Foi meu anjo da guarda em diversos momentos difíceis da minha vida, como esse. E ainda dizem, os desavisados, que eu salvei a vida de um cachorrinho fadado à eutanásia por ser paraplégico com lesão neurológica progressiva. Tolinhos! Petit me salvou – e muito! – muito mais vezes que eu a ele. Ele – e agora a Vida – me ensinam todos os dias que se precisa de muito pouco pra viver. Naquela época, por exemplo, me vi sem nada. Perdi tudo o que um dia tinha construído. Mas tinha saúde, meu cachorro carinhoso, um teto de abrigo, comida. Não tinha mais nada. Mas também não precisava de mais nada.

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