No dia 07 de setembro de 2015, feriado da independência, voltava de Maricá à noite para Niterói de carona. Do nada, tivemos que parar, pois uns quatro carros estavam parados em fila na pista da esquerda. Me estiquei pra ver o que era: vi dois cachorros saindo da frente do primeiro carro parado, um deles se arrastando.

Ou seja, tinha acabado de presenciar um atropelamento na estrada. O carro que atropelou foi embora. Os três seguintes da minha frente, também. Sem saber o que fazer, desci do carro pra ver o cachorro atropelado. Quando desci, o que estava andando se afastou e ficou monitorando nervoso de longe o amigo atropelado.

   O que fazer? Não poderia mexer em um cachorro atropelado que não conheço. Com dor, qualquer cachorro morde. Minha esperança, para lavar as minhas mãos e poder dizer que ao menos eu tentei, era que o cachorro se arrastando e assustado, ao me ver se aproximar, se afastasse. Não foi isso que o fez. Assim que me aproximei, ele veio correndo se arrastando para se proteger na minha perna. Não poderia deixar aquele animal ali. Se arrastando na estrada a noite, com certeza seria atropelado novamente e morreria. Seria uma provação de Deus para mim? Se eu me dedico tanto ao Petit, meu cachorro paralítico (que contei sua história aqui), eu deixaria aquele cachorro atropelado se arrastando, fadado a morrer?

   Eu tinha que pensar rápido pois todos nós corríamos risco parados na estrada a noite. Eu tinha que levá-lo sei lá pra onde. Mas ele poderia me morder. Não quis saber. Era o risco. Não me mordeu, nem tentou. Veio no meu colo no carro sem reclamar. Com um braço segurava o animal, com o outro procurava no celular clínicas 24 horas. Não achei. Pedi ajuda no Facebook, desesperada. Consegui.

   Durante a viagem de carro, carrapatos caiam em mim. Muitos carrapatos. Gigantescos. Ela gemia as vezes de dor, não aguentaria uma viagem muito longa. Chegamos, então, umas 23h na clínica. Foi então que vimos que se tratava de uma fêmea.

    Estava muito anêmica, muito magra e com muitos carrapatos. Não dava pra ver a pele dela. ERA SÓ CARRAPATO. Deixamos internada. Sem ter como, sem ter dinheiro. Mas deixei.

Assim que chegou no hospital, sendo examinada.

Assim que chegou no hospital, sendo examinada.

Na internação.

Na internação.

Redes sociais são fantásticas! Com o meu pedido de ajuda para a clínica no facebook, meus amigos perguntaram noticias… e muitos ofereceram ajuda financeira. Foi com essa ajuda que pude pagar o tratamento inicialmente. Dois dias depois, estava fechado o diagnóstico: multifratura da vértebra L5 e fissura da bacia. Possivelmente ela ficaria paralítica. Quando recebi aquele diagnóstico, me vi há anos atrás, quando recebi o diagnóstico de Petit (relembre!). Pensei em tudo que passei com Petit e tudo que gastei. Não tinha condições de passar por tudo isso de novo. Não sabia o que fazer.

    Além disso, muito mais urgente que a fratura na L5, era o risco de vida da cachorra: doença do carrapato. Ela estava muito anêmica e muito doente por causa da doença do carrapato. Possivelmente precisaria de transfusão. Possivelmente não sobreviveria.

Diagnóstico fechado: muito anêmica, doenças do carrapato, destruição da L5, fissura na bacia.

Diagnóstico fechado: muito anêmica, doenças do carrapato, destruição da L5, fissura na bacia.

    Entreguei pra Deus. Não deixei faltar tratamento. Mas, por não ter laços com a cachorra, pensei, sim, que seria melhor que ela a doença do carrapato a levasse desse plano… Qual seria sua vida paraplégica? Quem arcaria com o tratamento? Quem doaria tempo? Eu não poderia. Contudo, anjos nas redes sociais apareceram. Uma rede de solidariedade se formou. Desconhecidos se propuseram a ajudar. Graças às doações de amigos e estranhos conseguimos pagar quase 1 mês de tratamento na clínica: quase 5 mil reais. Conseguimos também comprar um carrinho ortopédico para ela. Ela ganhou nome também nas redes sociais: VIDA.

Vida na cadeirinha comprada com doações.

Vida na cadeirinha comprada com doações.

   A cada dia a Vida ressurgia. Era visível. E a cada dia ela ganhava mais fãs. Em duas semanas ela saiu do risco de vida. Em 4, ela já estava livre das doenças do carrapato e oficialmente não anêmica. EM APENAS QUATRO SEMANAS!

   Conseguimos um lar temporário para ela. No dia que levei lá ela teve uma diarréia incrível que no dia seguinte a devolveram para a clínica. Não tínhamos mais dinheiro para mantê-la na clínica. Não tínhamos mais lar temporário. Não tinha para onde levar. Entrei em desespero… mas entendi que a única solução para ela era, sim, vim para a minha casa. Moro em uma casa muito pequena, muito apertada, trabalho o dia inteiro, e JÁ TENHO UM CACHORRO PARALÍTICO E CIUMENTO!

   Mas eu não tinha muita escolha, né… Mas com os amigos que a Vida ganhou, eu tenho ajuda. E estamos aí… Petit recebeu bem a Vida. Ela está se sentindo em casa. Seu nome é Vida. Mas seu sobrenome poderia ser Carinhosa e Feliz.

Acaba que ao invés de um cachorro pidão, agora tem dois aqui em casa.

Acaba que ao invés de um cachorro pidão, agora tem dois aqui em casa.

Vida e Petit passeando.

Vida e Petit passeando.

   Não acabou. Estamos só no início da saga ortopédica. Ainda sem saber o real prognóstico pois tudo depende da cicatrização óssea. Mas é incrível em como ela quer viver. E o quanto ela é carinhosa com quem cuida dela. Incrível ser tão carinhosa, em se tratar de uma cachorra de rua, com marcas de maus tratos pelo corpo e atropelada e abandonada por humanos. Mas é.

Olhar de quem quer um lar e lutar por sua vida.

Olhar de quem quer um lar e lutar por sua vida.